Eu sabia. Não que eu não me desse algum crédito, mas eu sabia que, na Europa, cometeria vários dos lugares-comuns anunciados por todos os turistas que me precederam. E eis que volto de Paris, recheado de frases feitas e do "você tem que ir", e tudo aquilo que eu já ouvi mil vezes. O Demian tem um chiste que é o seguinte: deveria haver camisetas escrito "Paris é foda". Porque "Paris je t'aime" ou "Paris, mon amour" não dão conta do recado.
Tentei equilibrar, lá em Paris, as doses de turismo-de-guia-turístico e o flanar baudelaire-benjaminiano. Daí que não fui ver a Mona Lisa, por exemplo, mas achei recônditos incríveis e improváveis. Ainda assim fui na Torre Eiffell. E na passagens do Benjamin, claro.
Uma das coisas felizes da viagem foi aproveitar a experiência de meus anfitriões (a quem imensamente agradeço - Fabio, Demian, Lucía) e interagir com a população autóctone, coisa que ainda não tive a chance de fazer de fato aqui em Londres. Com meu francês de lutador de kung fu, fui à luta e tentei me fazer entender entre beicinhos e sais pas. Assim conheci queridíssimos franceses (os nomeio aqui, caso estejam na platéia: Lara [a querida Sra. Kinas] e seus colegas de coral, Magali, Guillaume, Anne, Marie, Fabrice, Benoit, François, abraços a todos) e compartilhamos agradabilíssimas soirées. Também foi maravilhoso encontrar os Brasil-brasileiros, alguns dos quais não via há anos: Fabio e Demian já citados, Ana Wegner, Eugênio, Cláudia.
Mas, como a imensa maioria dos leitores não faz a menor idéia de quem sejam os indivíduos que enumerei, deixo registrada minha lembrança e afeição e passo, pois, ao relato da cidade propriamente dita.
Tanto Paris quanto Londres se organizam geograficamente em função de seus rios. A população transita diariamente entre as margens, e há uma construção de identidade da cidade com os tais. Fico pensando em São Paulo, na catástrofe ambiental que é a dupla Pinheiros-Tietê, ou mesmo em Curitiba, com o Belém apodrecido e soterrado. Lamento imensamente. Aquela alegria que temos em ver a água (ao menos nós, os curitibanos sem praia), na orla do Rio de Janeiro ou Florianópolis, também nos afeta em Paris e Londres. Quando olhamos para o Rio Seine do alto da Pont Neuf ou da Pont des Arts então, é alegria multiplicada.
Meu quartel-general, a casa do Fabio K, ficava perto da Bastille (a própria). Um apartamento-estúdio com tudo na mesma peça (incluindo a banheira e excluindo o toilette) no quinto andar, sem elevador. Muito bem localizado, na cara do gol, diria um amigo meu. A dois paços dali, a bela Places des Voges, super bem freqüentada, onde Victor Hugo morou por um tempo.
Meu esporte favorito era sair de casa, pegar um Velib e lutar com o meu mapa Paris Pratique pra chegar em algum lugar determinado. Velib é uma idéia (que não é francesa, acho que é holandesa, não sei) genial, que deveria ser adotada por todos os lugares do mundo (talvez no Brasil fosse um pouco mais difícil, e vcs vão entender porquê). São pontos de bicicleta espalhados pela cidade, cada um com aproximadamente 25 veículos. Você faz uma carteirinha por um determinado período (um dia - um euro, uma semana - cinco euros, um ano - trinta euros) e pode usar qualquer bike por meia hora. Se o seu trajeto demanda mais do que meia hora, você devolve a bike em qualquer ponto, espera cinco minutos e pega outra. Caso estoure o prazo, você paga um euro por meia hora, um jeito para ninguém monopolizar as bikes. Dessa forma, mesmo Paris tendo o melhor sistema de metrô do mundo, eu precisei muito raramente tomá-lo, graças ao Velib. De madrugada, então, é uma mão-na-roda, com o perdão do trocadilho. O transporte convencional pára e os Velibs carregam os boêmios entre os cafés.
Mudando de assunto, os caras inventaram o Chantilly. Então, um chocolate quente com uma generosa camada do creme é uma experiência gastronômica do mais fino grau, considerando que ela será paga em euros, e em muitos. Paris é cara. Mais do que Londres. Mas, comendo em casa, e só abrindo algumas exceções para um Trouffé, um Chocolat ou uma 1664, acaba barateando.
De museus, fui no Pompidou, onde vi, além do acervo, uma exposição bocejante da Louise Bourgeois e outra chamada Traces du Sacré que, apesar de vocês saberem que a temática não é muito a minha praia, tinha uma escalação pra lá de interessante (como os franceses usam tudo no negativo, eles diriam "pas mal"): Goya, Münch, Malévitch, Klimt, Mondrian, Duchamp, Kapoor, Kandinsky, Giacometti, Picasso, Klee, Chagall. Rodin, Man Ray, Dalí, Picabia, León Ferrari, Francis Bacon, Beuys, Matisse, Rothko, Bill Viola, Pollock, Marina Abramovic, Warhol, etc. No Muséum National d'Histoire Naturelle vi meus amigos bichos, e na Nuit des Musées, vi Richard Serra na Nef du Gand Palais e Figuration Narrative, na galeria do Grand Palais.
Muitas praças, jardins, palácios. Para poupá-los de descrições, aqui vão as menções honrosas: Jardin des Tuileries, Jardin du Luxembourg, Jardin des Plantes.
Teatro, tive azar. Vi uma besteira chamada Claire no Theatre de la Villette. Vi também a trilogia l'Orestie, teatrão dirigido por Olivier Py, no Odeon. Chato. Só me dei bem quando fui assistir, no MC93, em Bobigny, o Éloge de l'escapologiste, uma peça de percurso dirigida pelo húngaro Árpád Schiling.
Indescritível foi o pôr-da-lua que vi sobre o Seine. Crescente, amarela e gigante, se debruçando, preguiçosa. Na mesmo dia (noite?), vi o sol nascer em Montmarte, atrás da Sacre Coeur. Lindo, maravilhoso, perfeito se não fosse o parágrafo seguinte.
Montmartre fica no norte de Paris, no 18ème arrondissement (que são como bairros, do 1 ao 20, ordenados em espiral, começando pelo centro), é um dos poucos pontos não-planos de Paris, e da igreja (catedral? basílica?) de Sacre Coeur se têm uma linda visão da cidade. Rumei até lá no meu Velib possante, junto com a Lucía, alucinada, às 05h30. Ao chegarmos lá, havia uma turminha de adolescentes bêbados, provocando os transeuntes, arremessando garrafas, etc. Eu fingi que não era comigo, apesar deles insistirem bastante no bulling. Eu e a Lucía achamos melhor nos retirarmos, e então eles pararam um jovem que passeava de bicicleta. Não sei qual foi a conversa, mas eles bateram muito no cara. Seis contra um, e o cara só não foi espancado porque não caiu no chão. A missão dele era fugir dali com a bicicleta, coisa que ele era impedido de fazer constantemente. A pancadaria só parou quando outros adolescentes que estavam ali seguraram a turminha da briga.
Aí que se vê que a França de Sarkozy é uma panela de pressão. Em 2006, durante o governo Chirac, mas com Sarkozy como ministro do interior, carros queimaram nos banlieus parisienses. É uma represa de ódio, lembrando o filme do Kassovitz, que opõe os franceses e os magrebinos, os norte-africanos que são totalmente "outros" em Paris. Daí essas explosões, daí espancamentos como esses. Daí a ascensão da direita no poder e o recrudescimento com os "ilegais". Daí os sans papiers que ocupam a bourse de travail, exigindo direito de permanência e trabalho em terras francesas. E a Sacre Coeur asséptica do filme da Amélie Poulain não dá conta de retratar isso. Paris fica menos romântica e mais globalizada, no mal sentido.
Isso é absolutamente complexo numa cidade que viveu intensamente o maio de 68, que completam 40 anos e de cujas comemorações eu participei como parte do meu processo de pesquisa. A participação popular na vida política francesa ainda é absolutamente forte - pude acompanhar duas grandes manifestações de trabalhadores e estudantes. Ainda que desafinados, sem ritmo, e algo demodé, os cantos dos manifestantes enchiam a praça da República, 35 mil pessoas presentes. Talvez pouco comparados com os 2 milhões de pessoas nas ruas de Paris em 68, 10 milhões em toda a França. Mas aquele espírito, mesmo com todo o esforço para empalhá-lo e vendê-lo como produto (não como processo) nas trocentas edições de luxo de livros sobre 68, talvez ainda exista. Transformado, relocalizado nos sans papiers, na fúria dos magrebinos, nos altermundialistas, talvez nos sindicalistas e nos intelectuais bundões. Mas 68 ainda está por fazer.