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Macondian Way of Life

Todas as novidades de Melquíades.

4.7.09

Tintas

O pior é quando o anjo torto,
ao invés de lhe dizer pra ser gauche,
insiste pra que você seja guache.

2.5.09

Tuíter

E as idéias infames de epitáfios do post anterior me incentivaram a entrar no mundo de twitter. Check it out!

Para a lápide

Ouvi estes dias um epitáfio de que gostei: "Valeu pela experiência!" Uma variação possível: "Foi bom para o curriculum".

10.12.08

Pequenos Acidentes Cotidianos IV

Ele era um website. Da época em que as pessoas diziam "website" e "hotlink" e que você ouvia um som irritante quando a internet conectava. Vivia num host semi-abandonado, tipo geocities. Mas, romântico, sonhava em ser um príncipe encantado.
Ela era uma navegadora da web. Da época em que as pessoas "navegavam pela rede", e que a metáfora era adequada. Era saudosista, pensava "que tempo bom aquele do Napster". Não queria nem ouvir falar de Windows Vista. Convencê-la a trocar o 98 pelo XP já tinha sido um suplício.
Tinham sido feitos um pro outro, mas nunca tinham se cruzado. Um dia, se encontraram por acaso, numa busca do google. Ele, cansado da vida em html e da falta de visitas denunciadas no contador, pediu que ela lhe desse um beijo, para que ele, finalmente, tomasse forma humana. Ela resistiu, mas, no final, pensou "por que não?". Fechou os olhos e fez biquinho.
Mas aí deu um erro 503 e tudo o que ela conseguiu foi melecar o monitor com saliva. Sobre ele, nunca mais ouvimos falar.

29.5.08

Pequenos Acidentes Cotidianos III

Não que ele sempre tivesse sido inseguro, mas Astolfo tinha, de uns tempos pra cá, perdido a confiança em si mesmo. Andava cabisbaixo, meditabundo. Errava o cesto quando arremessava o papel no lixo. Ficava se achando feio, mal-vestido, barrigudo, com bafo e caspa. Às vezes até tinha uma euforiazinha, e ele achava que a maré de desassossego já ia baixar. Mas, que nada, noutro dia lá tava ela de novo.
Astolfo tinha um coração remendado com durepox, que doía quando bombeava sangue. E doía também quando Astolfo se concentrava pra que ele não bombeasse. Talvez fosse isso que o deixara inseguro e ansioso. Mas Astolfo não estava bem certo.
Ele reclamava muito, até porque Astolfo não conseguia represar as palavras em sua boca, e elas vazavam pelo canto dos lábios. Só quando pensava nas crianças mudas telepáticas ou quando se mirava no exemplo das mulheres de Atenas ele se tolhia e pensava: "Ô Astolfo, largue mão e vá carpí!" Ou, como diria o Analista de Bagé, "te preocupa com a defesa do Guarani e larga o infinito"! Mas Astolfo nem conseguia plagiar o Luiz Fernando Veríssimo, apesar de tentar.
Depois de um tempo, a insegurança de Astolfo era tanta que ele não conseguia ter certeza se Paramaribo era mesmo a capital do Suriname, ou como se fazia uma casinha com o tangran.
Astolfo adquiriu o hábito de desviar-se de qualquer assunto que necessitasse de uma defesa de posição, de uma opinião mais acalorada. Já não mais olhava no olho de ninguém, e não mandava e-mails, poemas, scraps, nem mesmo fazia telefonemas, no temor de que não fossem bem recebidos, ou que fossem deletados tão logo lidos. Ele tinha vergonha até mesmo de escrever um post no seu blog.
Certa manhã, depois de despertar de sonhos intranqüilos, Astolfo encontrou-se em sua cama, metamorfoseado em um conto de Kafka. E nós só sabemos hoje de sua história porque Max Brod, o amigo-da-onça do escritor, não cumpriu o último desejo do checo e não mandou Astolfo e os outros contos pra lata do lixo.

26.5.08

Nenhuma derrota é definitiva

Em 2002, em Florianópolis, entrevistei Roberto Bui, membro do coletivo literário Wu Ming Foundation e uma das cabeças por trás do Projeto Luther Blissett. Além de render a entrevista e um artigo publicado em um congresso em 2003, o encontro com Bui foi a primeira faísca para o doutorado que agora desenvolvo. Retomei recentemente o contato com ele, para pesquisar os grupos atuantes na resistência ao capitalismo contemporâneo. Na nossa troca de e-mails, o tom dele é de frustração: segundo Bui, o movimento foi derrotado. Mas, ele salienta, nenhuma derrota é definitiva, e as forças submersas podem emergir a qualquer momento. Eis aqui o que eu e ele escrevemos.

Roberto,

Primeiro, desculpe por minha demora. Estive na França cobrindo as celebrações dos 40 anos do maio de 68 e acabei de regressar.

Eu tive a idéia para a minha pesquisa durante nossa entrevista [em 2002]. Naquela época eu estava interessado no plágio como uma estratégia criativa. Agora eu quero ir um passo adiante, e pesquisar a resistência ao capitalismo. Isso é um pouco amplo, e estranho (ao menos no Brasil) quando se está sob o Departamento de Teatro, mas meu ponto é o seguinte: Eu reconheço que o movimento contemporâneo contra o capitalismo (G8, OMC, etc) tem diferentes táticas se comparado com a “oposição clássica” (Partidos Comunistas, Organizações Trabalhistas). Estas “táticas” (e estou aqui interessado principalmente na ação direta) incluem alguns “pontos estéticos”, isto é, podem ser vistas como a emergência de uma performance. Claro que protestos e manifestações não pretendem ser “artísticos”, mas, ainda assim, há alguns “aspectos espetaculares” que são parte dos eventos. Este é meu foco.

Me lembro que você disse ter conexão com os Tute Bianche. Penso que este é um bom exemplo de protesto-performance.
Bem, o que gostaria de te pedir é uma apreciação sobre o tema, uma entrevista, e alguns contatos com pessoas que você ache que sejam parte deste processo.
Por exemplo, estou tentando entrar em contato com John Jordan, mas não consigo encontrar o seu e-mail. Estou em contato com os Space Hijackers também.

Espero que isto seja ok pra você.

Saudações,

F.

Caro Fabio,

Eu entendo o seu ponto. O problema é, temo não ter nenhum contato útil para compartilhar com você. Neste momento preciso, eu não sei de nenhuma intervenção estética organizada na política de movimentos. Pelo menos não na Europa. O movimento antiglobal foi derrotado, e na Itália – um país que está vivendo um de seus mais sombrios períodos na história – há conflito social, mas é mais “tradicional”, se é que você me entende. Quando nos encontramos em Florianópolis, a experiência do Tute Bianche já havia acabado, mas ainda havia uma riqueza de formas e intervenções. Agora é um período mais difícil, no qual a inteligência coletiva radical está trabalhando mais “disfarçada”, em contextos menos visíveis. Há uma cena literária muito rica e radical, um movimento que chamamos de “O Novo Épico Italiano”, mas não é performático nos termos que você descreve.

R.

Temo que você esteja certo. O momento entre Seattle 99 e Gênova 01 foi realmente fértil para o movimento antiglobal. Eu sabia que o Tute Bianche tinha parado, assim como o Reclaim the Streets, mas eu esperava que algo ainda estivesse vivo. Na França, eu fiquei impressionado com o movimento dos Sans Papiers – eles não são performativos, mas são muito presentes. Claro, estão lutando contra a dura política do Sarkozy... Aqui, em Londres, eu noto que há algo acontecendo nos squats. Ouvi falar sobre o “No tendrás uma casa em la puta vida”, da Espanha, sobre habitação...

Qual sua opinião sobre a derrota do movimento? Está relacionada com o pós-11 de setembro e a guerra contra o terror? A América do Sul parece estar em um momento “de esquerda”, mas isso não gera movimentos populares, além do tradicional Movimento dos Sem Terra.

F.


Bem, Fabio, primeiro deixe-me dizer que nenhuma derrota é definitiva. Eu acho que estes movimentos vão ressurgir porque tenho certeza que essa rede de pessoas está ainda trabalhando, entrando em contato umas com as outras, pensando, criando ferramentas e conceitos, e conflito é inevitável em sociedade. Claro que o período da “guerra contra o terror” tem sido (e é) muito duro. Eu concordo que os Sans Papiers são a mais interessante subjetividade atual, se encontrarmos uma maneira efetiva de conectar suas lutas na Fortaleza Europa com a herança das contra-culturas e radicalismo por todo o continente, será um passo cognitivo adiante.

No que concerne a Itália, o movimento (ao menos suas correntes mais organizadas) cometeram suicídio ao fazer todos os erros que podiam. Eu acho que o mais significante caso de estudo é o dos “Desobedientes”, o grupo que nasceu quando o Tute Bianche declinou.

Após a impiedosa repressão em Gênova e o golpe de 11 de setembro, a situação no país ficou mais dura e o sonho se despedaçou. Já no verão de 2003, o movimento estava numa crise profunda. Ele regressou a uma presença marginal no país, uma presença que ocupava o espaço semântico da extrema-esquerda tradicional. O velho papel chato desempenhado em regras chatas.

Os fóruns sociais falharam não apenas em providenciar uma “síntese”, mas também em dar sentido ao que aconteceu, porque um bando de “movimentistas” semi-profissionais os tomaram. Eles cometeram todos os tipos de erros e provaram ser grotescamente inadequados. Tática e estratégias sub-leninistas fossilizadas reapareceram. Um monte de tempo e de energia foi dissipada em guerras de identidade intra-grupos. Reuniões se tornaram patéticas brigas de galo. A maioria dos ativistas sensíveis e “não arregimentados” (especialmente mulheres) se encheram e saíram. Nós, o coletivo Wu Ming, estávamos entre os que se chatearam muito cedo. Mesmo antes de Gênova nós criticamos severamente esta tendência, escrevendo um conto satírico intitulado “O Enclave Social de Bolonha”. Quando nos encontramos em Florianópolis, eu ainda achava que o movimento tinha os anti-corpos necessários para se defender contra este tipo de doença. Eu estava errado.

A opinião pública pegou estas mudanças muito lentamente. A mídia não tinha idéia. A esquerda oficial (especialmente a Rifondazione Comunista) não tinha idéia. Os camaradas não tinham idéia. Uma casta de auto-proclamados porta-vozes – coronéis sem exército – aproveitaram o gap temporal e se venderam como líderes poderosos. A guerra da comunicação de guerrilha foi substituída pela mais óbvia câmera-mercadoria. O suicídio e a agonia do movimento foi televisionado ao vivo, dia após dia. Um desses porta-vozes virou um membro do parlamento, como “um representante dos movimentos”. Revoltante.

Claro que havia muita má fé nestes comportamentos, e carência de inteligência, mas talvez a crise fosse inevitável: mais provável, as forças sociais que formaram o movimento (sejam lá quais tenham sido) eram ainda imaturas. E, ainda em 2002 a sociedade italiana estava em alvoroço, a oposição ao governo do Berlusconi e a futura guerra do Iraque estavam ganhando seu momentum. De fato, era muito difundido. Havia greves todo dia, e piquetes, boicotes, ocupações, todos os tipos de manifestações. As pessoas falavam de uma “primavera dos movimentos”. Somente os burocratas desacreditados que se descreviam como “movimento de movimentos” tinham pouco envolvimento na luta. Quando um dos “porta-vozes” buscou uma foto oportunista num acampamento anti-nuclear na Lucânia, foi quase chutado pelos manifestantes. A primavera dos movimentos não queria nada com o inverno dos descontentes sectários.

Nesta época a Wu Ming tinha se distanciado disso tudo. A colaboração direta entre nós e os Tute Bianche durou um pouco mais de um ano: das manifestações anti-OECD [Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento] em Bolonha (junho de 2000) até os últimos meses de 2001.
Este é o ponto mais desolador da história. Como os Tute Bianche deram caminho para os “Desobedientes”.

Eu não posso falar disso de maneira imparcial, porque os desdobramentos dos eventos me deixaram de coração partido. Me lembro que levou vários meses para superar a tristeza, ainda me sinto magoado.

Havia pelo menos duas tendências entre aqueles que usavam as batas brancas: um considerando a roupa como uma ferramenta à disposição de todo o movimento, outro a considerando uma identidade. Havia ativistas falando sobre a roupa branca, e ativistas falando sobre os Tute Bianche, em maíusculo, como um grupo organizado. Isso sem dizer que nós estávamos entre os primeiros, e em severa oposição aos últimos.

Nas manifestações anti-G8 em Gênova, ninguém usou a bata branca. Nós coletivamente decidimos estender a prática da “desobediência civil acolchoada1” o máximo possível. Mesmo um símbolo aberto como o das batas brancas teria atrapalhado esta extensão. Era como uma referência a essa prática comum que aqueles que caminhavam saindo do estádio Carlini se chamavam de “desobedientes”. Daí os carabinieri mataram Carlo Giuliani, e as manifestações foram postas à deriva pela repressão. Naquela noite nos sentimos como alvos móveis. Estávamos aterrorizados, e ainda assim precisávamos responder, tínhamos que tomar as ruas novamente. Nossa única esperança era que o máximo de pessoas possível fosse para Gênova demonstrar sua solidariedade. No dia seguinte, 300 mil pessoas apareceram para nos salvar. Elas não eram os militantes radicais: os militantes radicais já estavam na cidade. Aquelas eram pessoas comuns com sentimentos democráticos, que se indignaram com a carnificina que viram na televisão. Eu sempre serei grato àquela multidão, enquanto eu viver. Naquela manhã de sábado, eu prometi a não trair aquelas pessoas. A salvação estava em se manter com a cabeça aberta, honesto e compreensível. A salvação estava em se manter distante do sectarismo.

Infelizmente, dentre os “desobedientes” do estádio Carlini, havia alguns estrategistas auto-suficientes que interpretaram exatamente o oposto: a repressão tinha sido possível porque não tínhamos sido duros o suficiente (!) De acordo com eles, a salvação estava em formar um grupo coeso, homogêneo e arregimentado. Não necessariamente pequeno, mas certamente rigidamente organizado. Aliança seriam possíveis, mas não fusão ou simbiose com o resto do movimento. Eles acreditavam que a abertura excessiva era perigosa porque fazia baixar a guarda. Claro que esta posição não era expressa de maneira tão clara, havia vários circunlóquios floreados, mas o conteúdo era inequívoco, fedia a fisiculturismo e a bravatas, a visão-curta e sectarismo.

Havia também a pseudo-análise. Me lembro dos detalhes da conversa com um camarada do Vêneto. Ele disse que o movimento estava entrando em uma fase “descendente” e que era necessário “fortalecer a organização”, para que pudéssemos resistir em tempos de crise. Eu disse-lhe que, na história dos movimentos sociais, aquela estratégia sempre tinha falhado. Sempre que você constrói um pequeno grupo cujo objetivo é sobreviver à crise, você está colocando a crise no centro do projeto, e o projeto devorará a si mesmo.

Além do mais, o movimento ainda não estava em crise: suas correntes organizadas estavam, porque não foram capazes de prever a repressão em Gênova, e também foram incapazes de prever o resgate de 300 mil pessoas. Era uma situação paradoxal: fracasso e sucesso misturados, a simplificação era perigosa.

Nós fortemente nos opusemos a essa degeneração: acreditávamos que não havia sentido renunciar ao papel central que ocupávamos no movimento, e virar a enésima versão de um partido auto-referencial.Contudo, nós éramos escritores, artistas, você sabe, artistas tendem a ter imaginação demais, nossos avisos foram julgados exagerados até pelos camarada mais sensíveis. “Não há necessidade de alarde, amigos, que mal pode vir de um pouco de reorganização?” Quando eles perceberam que estávamos certos, já era tarde demais. Sai os Tute Bianche, entram os Desobedientes, em maiúsculas e entalhado na lápide do movimento. Nós sentíamos que os Desobedientes haviam traído a multidão. No ano seguinte, muitos camaradas saíram do grupo, que rapidamente se tornou um monstro Frankenstein ideológico: uma práxis Stalinista, uma mente paranóica e uma linguagem parodiada dos zapatistas. Eles tentaram se fixar em várias cidades, e provaram ser intolerantes com os dissidentes. Em vários casos, chegaram mesmo a combater camaradas de outras correntes do movimento, especialmente anarquistas.

Enquanto o movimento agonizava como um todo e os fóruns sociais esmaeciam, os Desobedientes se tornaram cada vez mais marginais. Todos os seus projetos sob a marca “Global” (Global Magazine, Global Radio, etc) eram fracassos ridículos. Eles eram especialmente entusiasmados em se auto-promover (enganosamente, claro). Eles costumavam ir a outros países (Espanha, Alemanha, França) e descrever uma situação italiana que só existia em suas cabeças. Eram poucas dúzias de pessoas posando como uma vasta rede. Eram as sobras de esquerda radical tradicional, mas tentavam soar inovadores parodiando metáforas do Subcomandante Marcos. Sua linguagem em breve se tornou uma “linguagem de madeira”, enrijecida e tediosa, distante da realidade e das emoções. Um elemento particularmente irritante era a cópia da linguagem de Morpheus no Matrix. Eram uns chatos tentando se mascarar de descolados e cool... e soando ridículo. Naquela época, eu usei a técnica do cortar-e-colar e fiz um exemplo perfeito de propaganda Desobediente: “Os irmãos e irmãs do Movimento de movimentos e do movimento de homens e mulheres Desobedientes colocarão os seus corpos em risco e desobedecerão a Matrix em nome da desobediência social”, o que simplesmente significava: “Vai haver uma manifestação”. Por sorte, tudo isso acabou. Eu não ouvi falar deles por muitos anos, acho que foram engolfados por sua própria insignificância.

O problema é que este tipo de parasitas vai sempre existir e tentar tomar o controle dos movimentos. Eu só posso esperar que o próximo movimento seja maduro o suficiente para exclui-los imediatamente.

R.

24.5.08

Paris qui mesure notre émoi

Eu sabia. Não que eu não me desse algum crédito, mas eu sabia que, na Europa, cometeria vários dos lugares-comuns anunciados por todos os turistas que me precederam. E eis que volto de Paris, recheado de frases feitas e do "você tem que ir", e tudo aquilo que eu já ouvi mil vezes. O Demian tem um chiste que é o seguinte: deveria haver camisetas escrito "Paris é foda". Porque "Paris je t'aime" ou "Paris, mon amour" não dão conta do recado.
Tentei equilibrar, lá em Paris, as doses de turismo-de-guia-turístico e o flanar baudelaire-benjaminiano. Daí que não fui ver a Mona Lisa, por exemplo, mas achei recônditos incríveis e improváveis. Ainda assim fui na Torre Eiffell. E na passagens do Benjamin, claro.
Uma das coisas felizes da viagem foi aproveitar a experiência de meus anfitriões (a quem imensamente agradeço - Fabio, Demian, Lucía) e interagir com a população autóctone, coisa que ainda não tive a chance de fazer de fato aqui em Londres. Com meu francês de lutador de kung fu, fui à luta e tentei me fazer entender entre beicinhos e sais pas. Assim conheci queridíssimos franceses (os nomeio aqui, caso estejam na platéia: Lara [a querida Sra. Kinas] e seus colegas de coral, Magali, Guillaume, Anne, Marie, Fabrice, Benoit, François, abraços a todos) e compartilhamos agradabilíssimas soirées. Também foi maravilhoso encontrar os Brasil-brasileiros, alguns dos quais não via há anos: Fabio e Demian já citados, Ana Wegner, Eugênio, Cláudia.
Mas, como a imensa maioria dos leitores não faz a menor idéia de quem sejam os indivíduos que enumerei, deixo registrada minha lembrança e afeição e passo, pois, ao relato da cidade propriamente dita.
Tanto Paris quanto Londres se organizam geograficamente em função de seus rios. A população transita diariamente entre as margens, e há uma construção de identidade da cidade com os tais. Fico pensando em São Paulo, na catástrofe ambiental que é a dupla Pinheiros-Tietê, ou mesmo em Curitiba, com o Belém apodrecido e soterrado. Lamento imensamente. Aquela alegria que temos em ver a água (ao menos nós, os curitibanos sem praia), na orla do Rio de Janeiro ou Florianópolis, também nos afeta em Paris e Londres. Quando olhamos para o Rio Seine do alto da Pont Neuf ou da Pont des Arts então, é alegria multiplicada.
Meu quartel-general, a casa do Fabio K, ficava perto da Bastille (a própria). Um apartamento-estúdio com tudo na mesma peça (incluindo a banheira e excluindo o toilette) no quinto andar, sem elevador. Muito bem localizado, na cara do gol, diria um amigo meu. A dois paços dali, a bela Places des Voges, super bem freqüentada, onde Victor Hugo morou por um tempo.
Meu esporte favorito era sair de casa, pegar um Velib e lutar com o meu mapa Paris Pratique pra chegar em algum lugar determinado. Velib é uma idéia (que não é francesa, acho que é holandesa, não sei) genial, que deveria ser adotada por todos os lugares do mundo (talvez no Brasil fosse um pouco mais difícil, e vcs vão entender porquê). São pontos de bicicleta espalhados pela cidade, cada um com aproximadamente 25 veículos. Você faz uma carteirinha por um determinado período (um dia - um euro, uma semana - cinco euros, um ano - trinta euros) e pode usar qualquer bike por meia hora. Se o seu trajeto demanda mais do que meia hora, você devolve a bike em qualquer ponto, espera cinco minutos e pega outra. Caso estoure o prazo, você paga um euro por meia hora, um jeito para ninguém monopolizar as bikes. Dessa forma, mesmo Paris tendo o melhor sistema de metrô do mundo, eu precisei muito raramente tomá-lo, graças ao Velib. De madrugada, então, é uma mão-na-roda, com o perdão do trocadilho. O transporte convencional pára e os Velibs carregam os boêmios entre os cafés.
Mudando de assunto, os caras inventaram o Chantilly. Então, um chocolate quente com uma generosa camada do creme é uma experiência gastronômica do mais fino grau, considerando que ela será paga em euros, e em muitos. Paris é cara. Mais do que Londres. Mas, comendo em casa, e só abrindo algumas exceções para um Trouffé, um Chocolat ou uma 1664, acaba barateando.
De museus, fui no Pompidou, onde vi, além do acervo, uma exposição bocejante da Louise Bourgeois e outra chamada Traces du Sacré que, apesar de vocês saberem que a temática não é muito a minha praia, tinha uma escalação pra lá de interessante (como os franceses usam tudo no negativo, eles diriam "pas mal"): Goya, Münch, Malévitch, Klimt, Mondrian, Duchamp, Kapoor, Kandinsky, Giacometti, Picasso, Klee, Chagall. Rodin, Man Ray, Dalí, Picabia, León Ferrari, Francis Bacon, Beuys, Matisse, Rothko, Bill Viola, Pollock, Marina Abramovic, Warhol, etc. No Muséum National d'Histoire Naturelle vi meus amigos bichos, e na Nuit des Musées, vi Richard Serra na Nef du Gand Palais e Figuration Narrative, na galeria do Grand Palais.
Muitas praças, jardins, palácios. Para poupá-los de descrições, aqui vão as menções honrosas: Jardin des Tuileries, Jardin du Luxembourg, Jardin des Plantes.
Teatro, tive azar. Vi uma besteira chamada Claire no Theatre de la Villette. Vi também a trilogia l'Orestie, teatrão dirigido por Olivier Py, no Odeon. Chato. Só me dei bem quando fui assistir, no MC93, em Bobigny, o Éloge de l'escapologiste, uma peça de percurso dirigida pelo húngaro Árpád Schiling.
Indescritível foi o pôr-da-lua que vi sobre o Seine. Crescente, amarela e gigante, se debruçando, preguiçosa. Na mesmo dia (noite?), vi o sol nascer em Montmarte, atrás da Sacre Coeur. Lindo, maravilhoso, perfeito se não fosse o parágrafo seguinte.
Montmartre fica no norte de Paris, no 18ème arrondissement (que são como bairros, do 1 ao 20, ordenados em espiral, começando pelo centro), é um dos poucos pontos não-planos de Paris, e da igreja (catedral? basílica?) de Sacre Coeur se têm uma linda visão da cidade. Rumei até lá no meu Velib possante, junto com a Lucía, alucinada, às 05h30. Ao chegarmos lá, havia uma turminha de adolescentes bêbados, provocando os transeuntes, arremessando garrafas, etc. Eu fingi que não era comigo, apesar deles insistirem bastante no bulling. Eu e a Lucía achamos melhor nos retirarmos, e então eles pararam um jovem que passeava de bicicleta. Não sei qual foi a conversa, mas eles bateram muito no cara. Seis contra um, e o cara só não foi espancado porque não caiu no chão. A missão dele era fugir dali com a bicicleta, coisa que ele era impedido de fazer constantemente. A pancadaria só parou quando outros adolescentes que estavam ali seguraram a turminha da briga.
Aí que se vê que a França de Sarkozy é uma panela de pressão. Em 2006, durante o governo Chirac, mas com Sarkozy como ministro do interior, carros queimaram nos banlieus parisienses. É uma represa de ódio, lembrando o filme do Kassovitz, que opõe os franceses e os magrebinos, os norte-africanos que são totalmente "outros" em Paris. Daí essas explosões, daí espancamentos como esses. Daí a ascensão da direita no poder e o recrudescimento com os "ilegais". Daí os sans papiers que ocupam a bourse de travail, exigindo direito de permanência e trabalho em terras francesas. E a Sacre Coeur asséptica do filme da Amélie Poulain não dá conta de retratar isso. Paris fica menos romântica e mais globalizada, no mal sentido.
Isso é absolutamente complexo numa cidade que viveu intensamente o maio de 68, que completam 40 anos e de cujas comemorações eu participei como parte do meu processo de pesquisa. A participação popular na vida política francesa ainda é absolutamente forte - pude acompanhar duas grandes manifestações de trabalhadores e estudantes. Ainda que desafinados, sem ritmo, e algo demodé, os cantos dos manifestantes enchiam a praça da República, 35 mil pessoas presentes. Talvez pouco comparados com os 2 milhões de pessoas nas ruas de Paris em 68, 10 milhões em toda a França. Mas aquele espírito, mesmo com todo o esforço para empalhá-lo e vendê-lo como produto (não como processo) nas trocentas edições de luxo de livros sobre 68, talvez ainda exista. Transformado, relocalizado nos sans papiers, na fúria dos magrebinos, nos altermundialistas, talvez nos sindicalistas e nos intelectuais bundões. Mas 68 ainda está por fazer.

20.5.08

Pequenos Acidentes Cotidianos I e II

E o Pereira era lateral direito.
Foi na final do campeonato, contra o Riacho Doce.
O Pereira foi lançado, deu o pique, mas entrou numa fenda no espaço-tempo e desapareceu.
- Cruza a bola logo, Pereira! - reclamou Raimundo, o centroavante, livre na pequena-área.

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Adamastor sempre fora comedido. Mas naquela noite, antes de ir pra casa, comprou um liqüidificador novo. No entanto, que pena, morreu antes de chegar ao seu destino.
O legista concluiu que o sangue de Adamastor simplesmente mudou de sentido, e o coração teve um colapso.
Todos ficaram muito tristes, mas gostaram do liqüidificador novo.